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Para quem não sabe Dhaka é a capital de Bangladesh. País de grande maioria mulçumana.

Após minha estadia no Nepal, meu voo  rumo a  Myanmar  com escala em Dhaka sofreu algumas alterações. Nós pensamos que chegaríamos de tarde em Dhaka, mas por problemas no aeroporto de Kathmandu, acabamos chegando 10h  da noite.

Para nossa surpresa, minha e do meu marido, mesmo nós querendo pagar o visto e entrar no pais, eles não permitiram. Alegaram que nós não haveríamos tempo suficiente para tonar ao aeroporto a tempo de pegar o voo das 7h da manhã . Obvio que nós ficamos pasmos porque já havíamos planejado e sabíamos que perto do aeroporto existiam hotéis.

O que a companhia aérea nos ofereceu? Um ticket que dava direito a jantar e tomar café da manhã no único restaurante da área de conexão. Não, não era o único, existiam cafeterias, lojinhas de doces e os outros restaurantes só que esses estavam só nas áreas vips, que é para aquelas  pessoas que possuem determinados cartões de crédito.

Assim que você desembarca no aeroporto de Dhaka, dá prá notar a diferença cultural, quando mulheres de burca e os homens com o thoub são a maioria.

Praticamente sempre que estou viajando, eu observo  muito as mulheres. Como vivem, se são bem cuidadas, se usam roupas mais conservadoras ou não, se estão acompanhadas de homens, crianças, se dirigem , se estão ocupando postos de trabalho, enfim…

Bem , vou contar o que eu vi, o que eu senti  e também  as conclusões que eu cheguei.

Pois pensem em mim,  uma mulher ocidental, brasileira , que mora na Europa, cansada da espera  no aeroporto de Kathmandu, de férias,  louca de vontade de tomar uma cerveja bem gelada depois de passar muito calor, vou até esse restaurante e pergunto ao garçom se eles vendiam cerveja. O garçom, quase sussurrando, me diz que eles não eram autorizados a vender bebidas alcoólica e somente na área vip eu iria encontrar .

Resolvo então comer o que eu tinha direito. Arroz com ovo, um copo de água quente e uma sobremesa que eu ainda não descobri o que era. Até que estava bom… E depois me dirigi a ala vip.

Entramos em um dos lounges vip e pedimos duas cervejas. A espera ia ser longa mas pelo menos nós havíamos encontrado um lugar com wi-fi, cerveja gelada e uma televisão com o noticiário.

Foi quando uma notícia na TV me chamou a atenção.  A repórter anunciava que três meninas adolescentes, faziam  apresentações de dança como cover da Beyonce. Mas estou dizendo algo bem tosco, sem qualquer tipo de produção. É fantástico como nosso mundão é grande né? Isso jamais seria notícia no Brasil! nosso brasileirinhos  até pecam demais pela precoce vulgaridade tentando imitar adultos.

Bem, como nem tudo que reluz é ouro, logo descobrimos que o preço da cerveja era algo em torno de 20 dólares cada uma. Nós já estávamos cansados e decidimos ir nos jogar nos bancos da área de embarque.

Devido aos milhões de pernilongos, eu peguei minha pashmina e me cobri inteira. Adormeci. De repente, acordei arrependida de toda aquela cerveja. Ia ter que ir no banheiro de qualquer jeito. Saí andando pelo aeroporto enquanto meu marido estava dormindo. Foi me dando uma agonia, porque não tinha nenhuma mulher em giro. Eram só homens, e eram muitos.

Finalmente achei um banheiro e entrei. Para minha eterna indignação, eu vi ali, no piso do banheiro, por cima de umas folhas de papelão, três mulheres que dormiam naquele banheiro mau cheiroso e frio. Eu fiquei perplexa. Por que meu Deus?

Eu falei para o meu marido o que eu tinha visto e ele disse para não me preocupar. Eu sabia que não ia acontecer nada, estávamos em um aeroporto internacional. Mas por um momento me coloquei na situação daquelas mulheres. Por qual motivo elas estariam dormindo dentro do banheiro, praticamente escondidas? Por qual motivo não havia nenhuma mulher em giro? Não precisa nem dizer que passei o resto da noite embrulhada na minha pashmina com medo.

Na minha opinião, o “ser”  turista, existe quando dentro daquela pessoa, existe uma curiosidade sobre o mundo, sobre as diferenças. Existe vontade de ver, de aprender e acima de tudo, ter a capacidade de evoluir de alguma maneira. Naquele momento, eu senti uma eterna consternação por aqueles mulheres e por aquelas meninas que dançavam Beyonce na TV. Eu me vi passageira em um mundo guiado por homens.

E meu marido me diz:

-Se cubra e volte a dormir.

Talvez, quem sabe? Mesmo uma mulher ocidental, brasileira, que mora na Europa, precise às vezes, obedecer a um homem.

Uma fotinho que eu achei  na web : http://pt.wikipedia.org/wiki/Feminismo#/media/File:8marchrallydhaka_(55).JPG