Longe de ser feminista!  Quem me conhece sabe que não sou, mas que já travei muitas discussões por aí quando via alguém sendo menosprezado isso é verdade. Nesses ultimos dias, tenho visto muitos comentários nas redes sociais que abordam essa questão do machismo, e da forma como a mulher acontece nesse mundo. Digo acontece, porque a mulher é um acontecimento, são elas que geram a vida e são elas quem mais sofrem. Porque é engraçado essa coisa do machista esquecer que nasceu de um ventre feminino, de um corpo que algum dia, um homem desejou.

Coisa que não suporto, é ver meia dúzia  de gatos pingados se lambendo e enchendo a boca para dizer que é trabalhador, não ganhei nada de graça, não fui filha de pai rico, dei duro para conquistar tudo o que eu tenho… E aí segundos depois , essa mesma pessoa, pixando a imagem de quem está usando as últimas gotas de suor para ser forte e não se render. E vi muitas mulheres sendo chamados de nomes vulgares só porque possuiam  belos atributos físicos. E eu também, muitas vezes senti na alma essa mesma dor.

Então me lembrei desse texto que escrevi, quando estava no Nepal. Como esse blog também trata das minhas impressões desse mundão,  me sinto livre de publicá-lo.

 

 

Nepal, 9 de  março de 2015.

 

Passou  quase uma semana desde que partimos para essa longa viagem na Ásia. Parece pouco, mas a primeira semana já foi dificil. Se acostumar com tantas coisas e costumes diferentes dos nossos costumes ocidentais, dos meus, brasileiros e europeus. Onde nós, ainda que levemos uma vida bastante moderada, somos considerados a  a nata da sociedade.

Ontem , completou o sexto dia de viagem, estavamos em Kathmandu. Onde parece que o tempo parou a muitíssimo tempo atrás. Estranho isso né? Mas pense na situação de o tempo ter parado ha muito tempo atrás? Atrasado…

Pelas ruas congestionadas, empoeiradas e caóticas, apresentam-se todos os tipos de catastrofes humanas. Gente aleijada, mulheres que pedem esmolas com crianças no colo, vendedores ambulantes de todos os mais variados artigos nepaleses. O som ensurdecedor das buzinas proveniente de absolutamente todos os veículos. São carros caindo aos pedaços, ciclo-riquixás que são aquelas bicicletas com mini poltronas acopladas para levar os turistas, motos, ônibus abarrotados de gente, todos circulando sem a mínima ordem.

Ali, a lei funciona na base da paulada. Os poucos guadas que estão em giro, carregam uma espécie de cabo de vassoura e conforme a situação, conduzem os vandalos como os pastores conduzem seus rebanhos, muitas vezes usando um pouco de força para retomar o rumo.

Em um desses momentos, me peguei literalmente encurralada pela multidão, durante  a festa das cores que reverencia a chegada das monções, a Holi Party, uma mulher que havia desmaiado, vinha carregada por um policial e os outros vinham abrindo caminho com esses bastões. Não importava se feria os outros ou não, eu por um triz, não levei uma bastonada bem no centro da testa.

Não fosse pelo meu marido, que graças a Deus é bastante grande e me serviu de guarda-costas, estaria eu ali também desmaida. Eu classifiquei esse momento como sendo uma etapa importante da minha vida, que eu gostei de chamar de destraumatização de multidões. Os conceitos de ordem, beleza e civilidade que eu sempre acreditei, pesaram na minha consciencia.

Por qual motivo ?

Peso na consciencia, por ser uma pessoa abençoada e poder viver de forma asseada  e de alguma forma, me vi com a vida superior  a daquele mundo. Não foi fácil, me doeu.

Foi nas montanhas de Nagarkot, enquanto faziamos nosso trekking, que eu me senti amparada por um Deus. Em meio a tanta feiura, pode existir tanta beleza. Em meio as casas de barro sem saneamento, pode existir tanta vontade de preparar um alimento quente para a familia. Onde impera o espaço e a natureza, a vida daqueles que não se entregaram aos costumes da modernidade.

Onde gente e animais apenas coexistem, sem distinção de quem importa mais. Onde o papel da mulher importa porque é dela que vem a vida e o trabalho domestico.

Como as casas não tem muros e nem porteiras, se pode ver da estrada quase tudo de suas vidas, as vacas, dormem tranquilas, amparadas pela sua sacralidade.

Foi nessa pluralidade de sentimentos que me peguei pensando sobre o papel de cada mulher nessa vida. Sobre as consequencias de se nascer com essa sina.  Sabe, homens se viram muito facilmente, mas mulheres que são seres delicados, passam por tantos sacrifícios físicos pela vida. Exemplo, pense em uma mulher que deve enfrentar o ciclo menstrual vivendo em uma condição dessas?

Tá, mas daí você vai dizer,  precisou você ir até o Nepal para ver isso? Não te bastava as favelas de São Paulo? Vou explicar o porquê de só me ter caído a ficha quando estava lá.

Voltamos a Kathmandú, fazia muito frio. Eu entrei numa loja de roupas, ali no Thamell que é digamos assim, o bairro onde se concentra a turistada. Gostei tanto de um casaco e o vendedor praticamente me obrigou a experimenta-lo, já foi tirando do cabide e enfiando meus braços na roupa. Eu não me senti inclinada a comprá-la porque era cara, mas o vendedor então, começou com o jogo da barganha, que é assim que as coisas funcionam ali. É assim que eles fazem sempre, em qualquer tipo de venda. A meu ver, considero um pouco ridículo, uma vez que nenhum deles faz cara de contente ao final da negociação. Seria mais justo estabelecer logo um preço e paga quem quer , agradece quem vende.

Mas não! É um jogo de insatisfação onde a habilidade de negociar conta bastante. No caso eu, que sou uma mulher pouco ou nada respeitada ali, pela minha ocidentalidade,  por ser bonitinha  e provavelmente riquinha, afinal de contas estava ali do outro lado do mundo me sentia como uma besta humana cada vez que tinha que argumentar com aqueles vendedores.

Foi quando ele me perguntou o quanto eu queria pagar. E eu, com essa pose de princesa que faz compras no shopping Iguatemi,não que isso seja uma realidade, respondi brincando um valor bem baixo. Pois, esse homem se ofendeu e disse que não tinha tempo para negociar com clientes como eu. Com um gesto me conduziu a ir embora da loja. Ele me fez sentir como se eu fosse desprezível. Não entendeu que eu estava amigavelmente quebrando o gelo da negociação.

Eu saí de lá chorando muito, e apesar de ter  amaldiçõado até a quinta geração da família dele,  isso não me impediu de ficar aborrecida e com lágrimas nos olhos. Foi andando pela rua que vi uma mulher sentada num banquinho no meio fio, porque ali não tem calçada, é meio fio mesmo. Essa mulher me olhou bem fundo nos olhos, por dentro da minha alma e eu vi quando o olhar dela cruzou o meu olhar e ela também estava triste. Talvez seja esse sentimento que faz com a maior parte das mulheres não perpetuem guerras.

Naquele momento, odiei estar ali, tendo que aprender de forma tão bruta um mundo onde homens não consideram a voz femina, não são docéis, agem como se estivessem na idade da pedra e expulsa da loja alguem que vai ali com um poder maior que o deles. Poder esse, digo, algumas moedas para gastar em seu comércio.

Chorei muito naquele dia, chorei por todas as mulheres sentadas no meio fio com seus vestidos daquele colorido sujo. Chorei porque eu vi que elas me viram chorar e isso as deixou mais tristes ainda. E sei que por dentro elas choravam comigo por dores piores que as minhas.

Quando acordei, conferindo minhas mensagens, eu vi que naquele dia, tinha sido o dia internacional das mulheres. E eu não tinha me dado conta porque ali, naquele mundo, não existe essa data no calendário.

 

 

 

Dedico esse post a todas as mulheres que um dia foram ou sentiram-se “pixadas”.